Carlos Carvalho – Carta a Hermilo

Eu, de cá te felicito pelo teu centenário. Eu só não. Tem muitos que sei que também te parabenizam como Juareiz Correya, Luiz e Carlos Reis, Germano Haiut, João Ferreira, Janice Lobo, João Denis, José Cláudio, e claro Leda Alves. E um montão de novos e velhos amigos. Desses velhos camaradas outro dia ouvi de José Cláudio a história de quando você foi ao seu atelier encomendando quadros para presentear os médicos, enfermeiros e todo pessoal quete assistiu na operação do velho coração palmarense. Tudo pincelado de forma alegre e com cores vivas. Foi comovente saber da sua honesta proposta de comprar mais de 20 telas sem dinheiro. Mais deve ter sido melhor na hora, na horinha, e imagino como não ficou a cara de José Claudio, diante da proposta. E ele aceitou. Mas contar é sempre melhor. Havemos de concordar. E ouvir melhor ainda. E essa história contada às gargalhadas. Melhor que sorvete de mangaba.

Hermilo, como é do nosso conhecimento eu e você não nos conhecemos, presencialmente, claro. Nunca fomos apresentados. Quando estive no Teatro Popular do Nordeste eu era um garoto. Te vi de longe mesmo que de perto. Não dava para abordá-lo e puxar conversa. Estava com Paulo de Castro e Pedro Henrique quando fomos assistir Andorra e depois Bum; nenhum sob a tua batuta. Pena. Mas aquele espaço cênico que permitia uma cena limpa, onde o trabalho do ator era o que importava me pegou. Eu havia lido Jean Vilar. Mas a tua fama de encenador contada por Evandro Campelo “Repi Govi”, era tão grande, que desde aquela época me interessei pelo teatro que preconizavas. Naquele tempo eu iniciava no teatro pelas mãos de Ruth Bandeira, que já puxava esse cordão. Daí por diante meu caminho foi buscar esse teu teatro popular, que é meu também, e que hoje chamo de espaço poético. Portanto Hermilo aqui da terrinha eu te conheço metamorfoseado, como você se coloca no prato da balança, e diz de si, em Margem das Lembranças. Digo então que sei de ti apenas o que inventaste nos contos e nos romances. Ou em muitas vezes pelo contar testemunhal de Leda. Digo que concordo de como enlaças a vida e a ficção. Como buscas a alma humana onde todos os personagens são protagonistas porque são inteiros. Não importa o grau de importância social. Todos são partícipes da narrativa. Não vejo na tua literatura coadjuvantes. Todos aqueles, homens e mulheres, inventados e reinventados trazem a marca da existência plena. A vida se engendra com a poesia e com o fantástico. O real é parte da invenção. Ou ao contrário. A língua portuguesa é outra coisa que me chama atenção na tua escrita. Como pontuas. A função da vírgula, dos dois pontos e ponto e vírgula. Como fundes o acontecimento narrado com o que pensas dele, ou como o personagem reflete sobre a vida. Quando leio parece que estou ouvindo aquilo que escreves. Me parece um dom. A língua que faz escrita e segue na boca em direção aos ouvidos. O mesmo acontece com a tua dramaturgia. Por incrível que pareça eu nunca dirigi nenhuma das tuas peças. Tenho tentado montar A Donzela Joana, mas a ditadura da realidade não deixou. Grana em outras palavras. Quem sabe no ano do teu centenário?

Por fim Hermilo foi por essa admiração e comprometimento com o que aprendi contigo, que eu fui convocado por Juareiz Correya para escrever este texto. Carta, melhor dizendo. E encerro afirmando que mantenho minha luta por um teatro popular, nordestino, brasileiro e universal. Por uma arte comprometida com as dores dos homens. Contra as injustiças. Todas as guerras. Intransigente na defesa da democracia. Lutando pelas igualdades. E por uma vida plena. Por todas as utopias do bem.

Quero agradecer por essa amizade de cá para lá onde estás.

Um abraço fraterno.

Carlos Carvalho

2 Comentários

  1. Claudete Richieri

    Belíssima mensagem para se comemorar o aniversário de uma aniversariante tão ilustre.

  2. Ivo Barreto

    Parabéns pela palavras Carlos Carvalho!
    Parabéns pela iniciativa Juareiz Correya!
    Evoé, Hermilo Borba Filho!

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