Carta de Hermilo sobre a Antologia “POETAS DE PALMARES” (2)

Eu fiquei meio com a cara no chão e só poderia corrigir esse meu erro (uma quase agressão…) enviando o livro diretamente para o endereço dele. Assim que recebeu o livro, Hermilo me escreveu esta carta que traduz a sua amorosa relação com Palmares :

“Recife, 28 de agosto de 1973.

Juareiz, caro :

Restabelecida a ordem : recebi o livro, que li. Gostei do seu prefácio, com boa linguagem, sem empáfia, com justeza. Bom, lá me flagrei com vontade de chorar, e chorando… Porra ! Palmares foi a grande marca da minha vida. Palmares e tudo o que estava dentro de Palmares em vagabundagem, boceta, jogo, bebida, rio, mendigos, parentes, amigos, sacanagens, humilhações, fome, euforia, caçadas, pescarias, política, comida, festas, espetáculos populares, danças, punhetas, coxas, cigarros, futebol, leituras, cus, músicas, choros, mortes, arruaças, mentiras, angústias, madrugadas, canções, chuva e sol, pássaros, plantas, engenhos, mata, cana, peixes, feiras, bilhas, putas, religião, doceiras, tipos populares, teatros, cinemas, cangapés, amigações: a VIDA. Vou escrever um artigo sobre o livro, que é, afinal de contas, um artigo sobre a minha juventude. Muito e muito que bem, sem Juareiz ! Quando vier ao Recife apareça aqui em casa para tomar um uísque comigo : Eu sou Palmares. Eu sou você. E temos de beber a isto. Do velho amigo

a) Hermilo.”

2 Comentários

  1. Como era rica a linguagem dele. Sem frescuras. Parece uma vida em resumo e a gente se identifica com essas coisas, porque eu nasci ali perto, em Ribeirão. Quando a gente faz uma leitura de Hermilo é a própria vida da gente ali estampada nas suas obras. Abraço, Juareiz! JOCA DE OLIVEIRA

  2. Martha Andrade da Mota Silveira

    Me encantei com o realismo, a diversidade de ângulos que vemos a vida. Levar-me a voltar a ler mais e viajar neste mundo imprevisível e mágico das palavras

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