Carta de Hermilo Sobre a Antologia “POETAS DE PALMARES”

Realizei a primeira edição da antologia Poetas de Palmares, em 1973, na cidade onde nasci, conhecida, desde o início do Século 20, como “a terra dos poetas” : terra de Ascenso Ferreira, poeta modernista projetado nacionalmente, e de Hermilo Borba Filho, dramaturgo, romancista e contista de dimensão nacional e internacional. Mais de 700 pessoas, de Palmares e de municípios vizinhos, na Mata Sul, participaram, adquirindo a antologia em uma campanha de pré-aquisição que eu e Elói Pedro da Silva, sócio da nossa Editora Palmares, empreendemos, com sucesso. Tanto é que, da década de 1970 até os dias de hoje, a antologia permanece destacada na vida cultural da cidade como o maior sucesso editorial palmarense.

Eu não conhecia Hermilo pessoalmente. Ele militava na imprensa pernambucana, publicava semanalmente uma crônica no Diário de Pernambuco e abordava vários assuntos, sobretudo literatura brasileira. Encaminhei um exemplar do livro para ele, por uma pessoa conhecida e mais próxima dele, na esperança de ler algum comentário em uma das suas crônicas semanais… Ele não escreveu nada, não disse nada. E eu fiquei
aguardando com uma certa ansiedade. Depois de umas três semanas, consegui o endereço dele e enviei, pelo Correio, uma carta. Hermilo respondeu :

“Recife, 15 de agosto de 1973.

Juarez :

Nessa sua carta sem data você fala como se eu houvesse recebido Poetas de Palmares. Jamais. E jamais pus a vista em cima do livro. Falar sobre ele, como, então ? Você fala também como se eu houvesse recebido qualquer comunicação anterior a esta agora sobre Antologia Geral. Se vocês me houvessem consultado antes eu desaconselharia o trecho escolhido de Deus no pasto, que não representa o que diz – ou quer dizer – o meu romance. Seria antes, preferível, o primeiro capítulo de Margem das lembranças. Certo que não queira, no princípio da jornada, ferir moralmente (?) suscetibilidades, mas vai feri-las politicamente. É um impasse. Em todo o caso, faça como achar melhor.

Segue a nota bibliográfica. Faça dela o uso que lhe convier, como é de praxe dizer-se. E agora, que recebi uma palavra sua, está tudo respondido, creio. Eu não poderia era responder coisas que não havia recebido. Por isto, o tom levemente irônico da sua carta magoou-me um pouco. Jamais deixei de aliar-me aos jovens em qualquer empreendimento cultural, principalmente quando envolve os pagos a quem devo uma carga tão emocional de minha vida.

Creia na sinceridade do seu

Hermilo.”

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