Descobrindo Hermilo

Muitas vezes contei essa crônica da descoberta. Para vencer o tédio anunciado de uma viagem, fui à única livraria da cidade. Um livro me chama a atenção pelo título, Os Ambulantes de Deus (1976), de um autor para mim desconhecido: Hermilo Borba Filho. A leitura me provocou um susto, eu tinha intimidade com as ruas descritas, desenhadas com tintas oníricas e reais. Senti-me irmão daqueles navegantes que atravessaram o rio Una.

Descobri, encantado, que a literatura pode estar em meu quintal.

Não sei a largura do rio Una, mas lembro bem da jangada num ancoradouro ao lado da prefeitura. Nos servia de transporte às terras do engenho Paul. Era uma travessia curta, não mais que cinco minutos. Li o livro surpreso e encantado com aqueles seis personagens – a prostituta Dulce Mil-Homens, o poeta cordelista Cachimbinho-de- Coco, o cego pedinte Nô-dos- Cegos, o bicheiro Amigo-Urso, o calunga de caminhão Recombelo e o barqueiro Cipoal – torrando cinco longos anos para fazer o mesmo caminho fluvial.

Cada um dos cinco anos começa no carnaval e termina no Natal – o ciclo dos folguedos nordestino – e tem sua própria condicionante. No primeiro deles, A Nuvem, um mundo nebuloso vai revelando aos poucos o esplendor de suas possibilidades. Segue-se A Calda, a miséria ribeirinha se valendo de uma outra miséria, a degradação natural do curso d’água pela ambição imensurável dos fatores econômicos. E vem A Chuva, a purgação bíblica lavando os pecados de uma comunidade marcada pela violência, a libidinagem, a injustiça. Daí A Cheia, o fenômeno natural a engolir vidas e a ser levada com deboche por uma gente que ri de suas desgraças. E enfim chega O Sol, onde a redenção parece estar próxima, na margem direita do Una.

Estamos no universo mítico de Hermilo.

Cipoal é uma espécie de Caronte e também carrega seus passageiros ao portão onde acabam todas as esperanças. Nada haverá a partir dali, pois o que importa para aquela gente é o processo de humilhação eterna que viveram, um descaminho sem retorno e que irá se repetir com os próximos passageiros. Metaforicamente, o autor nos ensina da secular condição de degradação da gente que ele tanto descreveu e, de cera forma, cantou.

E para melhor fabricar seu canto, Hermilo recorre ao lirismo, ao folclore. Cachimbinho-de- Coco sonha uma cavalhada mágica, contada na fala liberta do povo. Esta linguagem popular, não afeta a compreensão do discurso, nem o fere. As meigas sentenças e a ênfase nos fatos, dispensa qualquer incursão pela sociologia e pela linguística.

A opção pelo fantástico, radicalizada em seus últimos textos, o aproxima do realismo mágico. Talvez tenha sido, de sua geração, o autor que melhor estabeleceu este diálogo americano e certamente, junto com Ariano Suassuna, quem mais de perto recebeu as inspirações ibéricas de Cervantes e Fernando de Rojas – um irmão dileto de Lazarillo de Tormes.

Os Ambulantes de Deus fecha prematuramente uma obra que arranca da gente do povo aquilo que ele tem de mais caro e nobre: sua graça, sua libertinagem, sua pureza, sua contestação social.

3 Comentários

  1. Claudete Richieri

    Aos poucos conheço os textos de Maurício Melo Jr e gosto do que leio.
    Agora, a partir deste novo texto descubro também um pouco mais de Hermilo.

  2. Graça Lins

    Realmente Maurício, a literatura pode sim está em nosso quintal. O mesmo quintal palmarense que poetizou nossa infância. Parabéns pela qualidade literária de seu texto.

  3. Oba, valeu pelo conteudo hein 🙂
    Ancioso por mais… Abraço.

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