ENTREVISTA DE MIGUEL PESCADOR : PERSONAGEM DE HERMILO FALA SOBRE O SEU CRIADOR (2)

 

MARGEM DAS LEMBRANÇAS,

de Hermilo Borba Filho 

(Editora Mercado Aberto, 2a. edição, 1993 

–  Porto Alegre, RS)

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Não me lembro se Givanilton registrou  fotograficamente e guardou nos seus arquivos esse encontro.  E não tenho nenhuma fotografia à mão. Sei que a gravação da entrevista, em um aparelho portátil Phillips ficou ótima e eu pude trabalhar, sem preocupação, a sua transcrição em três ou quatro páginas datilografadas.  Poderia publicá-la, enviando-a para o Diario de Pernambuco ou para o Jornal do Commercio,  do Recife, mas, não sei bem o motivo, resolvi guardá-la.  E fiz isso por alguns anos seguintes, aproveitando para datilografar o texto de novo, fazer cópias xerográficas… até que, em uma mudança recente, no Recife, da Boa Vista para o Ipsep, descobri que o texto da entrevista sumiu.  Não resta mais nada.

Tento reconstruir, nesta crônica, as palavras das impressões do irmão e personagem do  escritor Hermilo Borba Filho sobre o seu criador, as palavras de uma entrevista perdida, e isto não tem, é claro, a condição de fazer com que o leitor se sinta ao lado de Miguel Pescador, ouça a sua expressão comportada (falando, de forma contida, da sua juventude em Palmares, ao lado de um escritor sem papa-na-língua, “desregrado”); e entenda que, como irmão mais velho, ele se sentiu comprometido com o futuro do irmão, bancando também os seus estudos,  para que ele não dependesse somente do grande amigo, o professor e orientador cultural Miguel Jasselli; e possa captar a emotiva admiração dele quando se referiu a Hermilo no Apolo, de Palmares, e em teatros recifenses, convivendo e conquistando mulheres – “ele era um sujeito inteligente, bem apessoado, tinha tipo, não era difícil para ele conquistar aquelas mulheres bonitas” …   Hermilo, revelou Miguel Pescador, mesmo diante das críticas que várias pessoas da cidade lhe fizeram, revoltadas com o que ele escreveu no livro MARGEM DAS LEMBRANÇAS, voltou a Palmares e procurou explicar que aquilo tinha sido feito para criar um clima mais interessante para os leitores, era só uma forma de dar mais vida à Vida; e teve o cuidado de explicar ao próprio Miguel Pescador as invenções das suas aventuras e desventuras (“onde eu fui roubado na hora de casar”, “briguei com quem nunca briguei na minha vida””, “e fui até capado !”).  Me lembro bem que Miguel Pescador fez questão de dizer que Hermilo nasceu para a vida que levava, com as histórias de teatro, cinema e até jornalismo, no Recife e em São Paulo, e que as dificuldades surgidas, com a família, emprego, os dois casamentos, filhos, os problemas do coração, tudo ele enfrentou sem reclamar nem se revoltar, “para toda situação difícil Hermilo tinha sempre uma palavra bonita”.  E, com o conhecimento mais fraterno que tinha do irmão, Miguel Pescador afirmou que, quando voltou da operação em São Paulo, pela primeira vez entendeu que Hermilo sentia medo, tomando uma mão cheia de remédios, recusando as comidas que gostava, desgostoso até com as bebidas.  “Aquilo era medo da morte. Ninguém se acostuma com a morte”, sentenciou Miguel Pescador (uma frase que, com certeza, Hermilo destacaria como epígrafe do capítulo de um novo romance, de uma novela, de um conto…)

Juareiz Correya 

(Recife, 10 de julho 2018)