ENTREVISTA DE MIGUEL PESCADOR : PERSONAGEM DE HERMILO FALA SOBRE O SEU CRIADOR

 

 MARGEM DAS LEMBRANÇAS 

(Capa da primeira edição do romance / 

Editora Civilização Brasileira, Rio, RJ, 1966)  

Nas minhas idas e vindas, entre o Recife e Palmares, depois da primeira edição da antologia POETAS DE PALMARES (1973), que organizei, conheci pessoalmente, no Recife,  o escritor palmarense Hermilo Borba Filho.  Ele havia escrito uma crônica sobre o livro, publicada no Diário de Pernambuco, e iria participar da “Antologia Geral 1 – Poetas e prosadores da Mata Sul de Pernambuco”.  Certo dia, Hermilo me escreveu comunicando que gostaria de me encontrar, em Palmares, junto com os meus amigos que estavam participando da cena literária da cidade, a exemplo dos poetas vivos incluídos na antologia.  Convidei o poeta Afonso Paulins, o professor Joventino de Melo – o inesquecível amigo Tininho – o amigo Lael Borba, seu parente, e o fotógrafo Givanilton Mendes, que era sempre meu parceiro em algumas empreitadas culturais na cidade, desde o início da década de 1970.  Hermilo nos recebeu no terraço da casa da filha de Miguel Pescador, seu irmão, em uma rua que cortava a Vigário Bastos à altura do prédio do Correio, na área central da cidade.  Ele estava ao lado de Leda Alves, sua companheira, e do amigo José Cláudio, artista plástico e escritor do Recife.

Nós, do reduzido grupo palmarense – apenas Tininho, Givanilton Mendes e eu -, conhecíamos Miguel Pescador.  Eu o via, às vezes, na área do Mercado Público de Palmares, andando para algum lugar, proseando com alguém, ou vendendo o seu peixe na feira, fruto da sua pescaria cada vez mais escassa nas águas do rio Una.  Com o grupo formado no terraço da casa da sua filha, Miguel Pescador se demorou pouco. Desapareceu, voltou depois, foi sentar-se no pequeno muro da casa, com as pernas voltadas para a rua, o rosto assuntando o tempo, como quem não está nem aí… Mas só percebemos isso quando Hermilo chamou a nossa atenção, com um braço levantado apontando para ele : – É um poeta.

Antes do almoço especialmente preparado, para ele e para os amigos do Recife, pela filha de Miguel Pescador e seu marido, nos despedimos de Hermilo, Leda e José Cláudio.  Fomos beber umas cervejas no primeiro bar que encontramos na Vigário Bastos.  Tínhamos conversado sobre coisas que interessavam a Hermilo (Leda e José Cláudio foram comportados observadores), e ele falava pouco sobre o que teria para dizer, meio monossilábico e discreto : quis saber como a cidade recebia o que a gente estava realizando, a divulgação e distribuição dos livros, o projeto da nova antologia e até outros projetos que poderíamos realizar, na cidade e na região.

Após o “encantamento” de Hermilo (dia 2 de junho de 1976, no Recife), passado algum tempo, combinei, com o amigo e parceiro Givanilton Mendes, a realização de uma entrevista com Miguel Pescador, para conhecer e documentar as suas impressões sobre o irmão escritor. Acertamos com outro amigo – Gilson Pretestato – a liberação de uma sala, no primeiro andar do espaço comercial do seu pai, localizado no Beco do Mijo, uma rua travessa ao lado da Praça do Mercado.

Às dez horas da manhã do sábado programado, Miguel Pescador chegou ao local e fomos juntos para a sala.  Gilson Pretestato, compreensivo, nos deixou na sala à vontade em companhia de Miguel Pescador.  Givanilton preparou o gravador e começamos a gravação da entrevista, sem notas ou qualquer coisa pré-estabelecida, apenas interessados em deixar Miguel Pescador falar o que quisesse.  Ele era uma das principais figuras de ficção de Hermilo na sua tetralogia de romances – sobretudo de MARGEM DAS LEMBRANÇAS, o primeiro romance, e tínhamos, naquele momento, o privilégio de ouvir e documentar as impressões de um personagem de ficção contando “a história do seu criador”.

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(Na próxima postagem publicaremos a parte final deste relato)

Juareiz Correya 

Recife, 10 de julho 2018